Futebol
Quando uma criança nasce no Rio Grande do Sul o chá revelação não é azul e rosa, é azul e vermelho. Logo que a criança começa a falar suas primeiras palavras, surge a pergunta: Você é “vermelho do Inter” ou “azul do Grêmio”? Na maior parte dos casos, não é bem uma escolha, e sim uma herança. Um destino traçado pela paixão clubística que corre no sangue, unindo (e dividindo) famílias.
Eu sempre fui “vermelho do Inter”. Um pouco por ser o time do meu pai, é claro, mas desde criança eu ouvi a história de como o time foi criado, e isso sempre me encheu os olhos. Em uma época em que o futebol era somente para brancos, o Internacional surgiu como um grito de protesto, um manifesto contra o racismo e pela inclusão. Um time para todos. É claro que, na prática, a inclusão é sempre mais complicada que na teoria, e é verdade que ainda existem muitos torcedores racistas e homofóbicos até hoje, mas o Inter mantém sua posição firme contra a discriminação.
Crescendo, eu acabei me afastando do futebol e virei o tipo de pessoa que só assistia a Copa do Mundo. Mas, recentemente, um amigo meu que também é colorado (torcedor do Inter) começou a me chamar para assistir os jogos na casa dele. Foi aí que eu finalmente entendi por que eu não gostava de futebol: eu estava assistindo sozinho. Essa é a magia da Copa: estar no meio de um monte de gente torcendo para o mesmo time, vibrando, gritando, lamentando. Não é sobre o jogo.
E, além disso, o que mais une as pessoas: um inimigo em comum. Quando eu encontro um colorado na rua, não sei absolutamente nada sobre ele. Podemos ser totalmente opostos, mas eu sei que temos algo em comum: odiamos o Grêmio.
No dia 22 de maio, realizei um sonho: ver o Inter em um estádio. Morar longe do RS e o custo dos ingressos sempre foram obstáculos. Então, quando o Inter veio para Florianópolis, foi a oportunidade perfeita. Meu amigo (te amo, Téo!) pagou o meu ingresso e me levou. Ele, um veterano de arquibancada que sabia todas as músicas, e eu, um novato emocionado e arrepiado em ver meu time de perto e tanta gente de camisa vermelha gritando junto1. E como um fã da Taylor Swift na grade do show, minha vontade era erguer um cartaz escrito “ANTHONI EU TE AMO” ali na arquibancada. O jogo foi lindo, ganhamos de 3 a 0, mesmo perdendo três pênaltis. O oponente? Um time que eu nunca tinha ouvido falar.
No fim das contas, eu continuo achando futebol um esporte meio sem graça. Poderia ser qualquer outro esporte, a graça está em torcer junto, na paixão e o ódio compartilhados.
Para o Futebol, eu dou 2 flocos de neve.
Para a Sensação de pertencer a uma torcida, eu dou 5 flocos de neve.
Tem algo de especial em ver uma criança de 7 anos cantar a plenos pulmões:
“E depois de me chapar
A cerveja acabar
Eu vou
Matar um puto tricolor”





Que texto gostoso, afiado e honesto. Tem humor, tem afeto, tem aquele olhar de quem observa o mundo de fora, mas também se deixa atravessar por ele. A graça aqui nem é sobre futebol, e sim sobre pertencimento — sobre como a gente se inventa e se reinventa na soma dos afetos, dos rituais, dos pequenos ódios compartilhados e das grandes paixões coletivas.
A parte final é uma síntese perfeita: futebol pode ser meio sem graça, sim. Mas torcer junto? Isso é sobre vida. Sobre se sentir parte, mesmo que só por 90 minutos, de algo maior que a própria solidão.